TRABALHO DE BASE: Um movimento nacional de desempregados

Em seu primeiro encontro nacional, trabalhadores discutem formas de organização na periferia urbana

Nanda Duarte e Raquel Casiraghi de Porto Alegre (RS)

Com quase sete anos de existência, o Movimento dos Trabalhadores Desempregados (MTD) realizou, entre os dias 12 e 15 de abril, o seu I Encontro Nacional, em Porto Alegre (RS). A construção de uma identidade nacional para a organização, que crie união dos desempregados em torno de bandeiras comuns, foi um dos principais desafios levantados. “O MTD acredita no potencial revolucionário do trabalhador desempregado, tão negligenciado pela esquerda. O capital precisa dele justamente para pressionar aqueles que estão trabalhando, para dizer: ‘Se você não quiser este trabalho, existem milhões ali fora querendo’. Quando esses milhões que estão fora negarem esse processo de exploração é que a gente vai fazer diferença”, avalia Diva Braga, da coordenação do MTD em Minas Gerais.

NOVA ORGANIZAÇÃO

A tarefa da organização dos trabalhadores urbanos é mais complexa do que parece. “O meio urbano está organizado. A questão é: para que está organizado?”, questiona Mauro Cruz, coordenador do MTD no RS. Os dirigentes do movimento defendem que a periferia está, hoje, organizada pelo crime, pelo terceiro setor, pelas igrejas, na lógica da manutenção das relações sociais capitalistas de exploração. “Então, nós temos que nos organizar de outra maneira”, completa Cruz.

Diva Braga denuncia o desserviço das ONGs para a organização popular nos bolsões de pobreza, que concentram o maior número de desempregados do país. “Nesses lugares está havendo uma ação muito forte do terceiro setor, no sentido de fomentar um espaço de trabalho precarizado, de ocupação do tempo, onde a pessoa não consegue se compreender como desempregado”, afirma, complementando que isso afeta a construção de sua identidade de uma classe e a compreensão da necessidade de organização. “Além disso, temos outros atores que se colocam no meio urbano, que são o tráfico, as milícias e as religiões evangélicas nas periferias”, explica Alexsandro Soares, coordenador do MTD no RJ, onde o fenômeno se evidencia especialmente. Para ele, “trabalhar hoje na favela é trabalhar com esses atores que se conflitam porque acabam se negando dentro daquilo que defendem”. E completa: “As igrejas evangélicas entram nessa situação de violência e pobreza extrema com as promessas de ganhos terrenos e de que tudo tem salvação”.

Para fazer frente às promessas, o MTD aposta no trabalho de base. “Não só olhando para a visita pontual, para uma campanha. Mas o acompanhamento sistemático da periferia, dos núcleos de base”, explica Mauro Cruz. A metodologia de organização guarda diferenças de região para região, que tem autonomia para avaliar a melhor forma de construção dos espaços de luta. Mas os princípios gerais do movimento são preservados: trabalho coletivo, coordenação com gênero (um homem e uma mulher na liderança), e o norte da construção de uma sociedade socialista.

Outra marca do MTD é a clareza com que esses princípios são apresentados e discutidos. Por isso, a formação também se destaca entre as preocupações centrais na metodologia do movimento. “Se nós não fizermos isso, vamos construir uma massa de manobra. Pessoas que vêm para atividades sem saber para quê”, defende o coordenador gaúcho.

TRABALHO X EMPREGO

Defender a “revolução” em um discurso sem máscaras fortalece a construção de uma luta consciente de si, mas “faz demorar um pouco mais a organização do povo, porque as pessoas, conhecendo a miséria, querem resolver o seu problema, e o quanto antes”, lembra Diva Braga. Uma característica que não está implícita quando se pensa um movimento de trabalhadores desempregados, mas que diferencia o MTD, é justamente o seu objetivo principal, como explica Cruz: “Nossa luta não é por emprego, é por trabalho. Nós não queremos organizar as pessoas para vender sua força de trabalho, mas para produzir de acordo com as suas necessidades”.

A análise do MTD é de que o desemprego é uma questão estrutural, não tem solução dentro do capitalismo. “O movimento não quer a construção de um monte de carros para entupir as cidades e poluir nosso ar para gerar mais trabalho nesses moldes, continuando a prática da exploração e da acumulação. O crescimento do emprego está condicionado a uma forma de vida que a gente combate”, afirma Diva. Significa dizer que a bandeira maior do MTD é a mudança radical das formas de produção, dentro de um novo projeto de sociedade. “Queremos que a classe trabalhadora possa exercer a sua vida da forma mais humana possível, reorganizando o trabalho para o bem viver, e não para uma acumulação”, defende Diva.

LUTA SEM ILUSÃO

Quando o assunto é projeto de sociedade, o movimento urbano tem de se relacionar com o rural. A unidade da esquerda, porém, ainda parece distante. “A maioria, e nós nos colocamos também nesse sentido, dos movimentos são corporativistas. Organizam-se em uma categoria e constroem a sua identidade a partir de lutas específicas”, avalia Cruz. A conjuntura de decepção dos movimentos com a gestão do governo Lula pode indicar um amadurecimento nos espaços de esquerda, segundo ele: “Certamente nos iludimos com o primeiro mandato do Lula. Nesse segundo mandato, a gente tem muito mais disposição de luta, sem ilusão”.

Na concepção do MTD, o desafio está em que os movimentos avancem para uma consciência menos reivindicatória e mais política, de projeto, de disputa da sociedade. Mauro aponta que “é desta necessidade, inclusive, que nasce o próprio MTD”.

Fonte: Jornal Brasil de Fato

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2 responses to “TRABALHO DE BASE: Um movimento nacional de desempregados”

  1. JOÃO BATISTA COSTA says :

    OLA MAURO CRUZ, ÉO JOÃO MTD-SC, LI AMATÉRIA ACIMA GOSTEI, REALMENTE É ASSIM QUE SE ENCONTRA NOSSA PERIFERIA NO BRASIL TODO, COM UM MONTE DE ONGs, MELICIAS, A QUESTÃO RELIGIÓSA TAMBEM ATRAPALHA MUITO BEM, A ORGANIZAÇÃO DOS TRABALHADORES DESEMPREGADOS, O TRAFICO DE DROGAS VEM COM TUDO, O TRAFICO VEM E MALTRATA NOSAS COMUNIDADES, E DAI VEM AS IGREJAS EVANGELICAS CURANDO, SALVANDO, ANESTEZIANDO COM DISCURSOS, LEVANDO AS PESSOAS A OUTRA DROGA, QUE É DEPENDENCIA TAMBEM, DIZENDO QUE AQUI NÃO É O NOSSO LUGAR, QUE O NOSSO LUGAR É NO CÉU, QUE AQUI É SÓ UMA PASAGEM, QUE O NOSSO PARAISO NÃO É AQUI, NÃO BASTASSE ISTO VEM O TERCEIRO SETOR, ORGANIZADOS EM ONGs, E VEM ORGANIZANDO OS TRABALHADORES DE FORMA BEM PRECARIA SE DIZENDO SOLIDÁRIA, MAIS DA PRA VER ELES NÃO FALA MUITO NO TRABALHO COLETIVO, E COM TODAS AS PRECARIEDADES POSIVEL, DIGO ISTO QUANDO É QUE ESTE POVO VÃO ABRIR OS ÓLHOS, E SAIR EM LUTAS, DEIXANDO O EMEDIATISMO DE LADO, E CONSTRUINDO UM NOVO TIPO DE PENSAR DE VER AS COISAS, E DEIXAR TAMBEM DE SEMPRE ESPERAR QUE ALGUEM FAÇA ALGUMA COISA PRA ELES, E DEIXAR DE SÓ QUERER PEGAR PRONTO, ACABAR COM ESTE VICIO DE ESPERAR TUDO PRONTO, E SAIR A LUTA LEVANTAR A BANDEIRA BEM ALTO E DIZER VIVA O MTD, E CONCIENTIZAR-SE E ORGANIZAR O MTD EM ESTADOS QUE A INDA NÃO TEM. JOÃO MTD-SC FONES: 48) 3443-8082 / 48) 9904-7619.

  2. jonas ferreira bahia says :

    gostamos demais da visita de voces venham esmpre que puder um forte abraço em todos de todos nos ok t + ver 1 dia

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