Como nascem os símbolos

Os primeiros raios de sol passam por entre uma fenda na barraca tocando o rosto de Pedro e, aos poucos, ele desperta. Esfrega os olhos com as mãos ainda sujas de terra, pois havia passado uma boa parte da madrugada construindo aquela barraca de lona preta. Ainda deitado olha para o lado procurando as suas meninas que dormem juntas debaixo do único cobertor que possui. Devagar põe o braço em volta das três pequenas tentando extrair o máximo de proveito daquele momento enquanto pensa na falta que faz a mãe delas.

Os braços fortes de Pedro carregaram a mãe das meninas de hospital em hospital até seu último momento de vida. Jéssica morreu nos braços de Pedro enquanto ele tentava pegar mais um táxi com os poucos recursos que tinha. A mãe das meninas foi vítima de uma doença pulmonar causada por anos de trabalho em contato com agentes químicos. A fábrica onde Jéssica trabalhava não garantia o equipamento necessário para cumprir as intermináveis dez horas de trabalho em contato com substancias tóxicas.

Observando as três, imagina que cada uma será a cópia fiel da mãe que, quando ainda estava saudável, exibia um sorriso que contagiava a todos e um corpo que, a cor morena da pele, aguçava os sentimentos dos homens.

Tirando delicadamente o braço de cima das pequenas filhas e ainda deitado, pega a mochila debaixo da cabeça enquanto senta sobre o pedaço de lona preta em que dormia. Seus objetos estão amontoados dentro da mochila e sem muita paciência ele tenta encontrar a identidade. Coloca ela no bolso e, deixando a mochila de lado, passa a procurar o seu facão de mato. Não é um facão qualquer, é um facão de cabo de madeira decorado com fios de cobre trançados e lâmina fabricada com um excelente aço.

Ele pega o facão que está dentro de uma bainha de couro legítimo e se lembra da madrugada. Os dois quilômetros que havia andado não foram sentidos no momento da marcha que percorreu vales, montes, estradas e vielas. Ele lembra de ter olhado para trás e não ter enxergado o final das duas colunas paralelas. Eram quase quinhentas famílias marchando. O facão que carregava, desembainhado, com a mão esquerda era erguido todas as vezes que havia um grito de guerra. Tochas carregadas por alguns companheiros ao longo da marcha ajudavam a iluminar o caminho.

Enquanto lembra das chamas que saíam das tochas, Pedro aperta o cabo do facão com força fazendo com que ele sinta dor em uma das dobras do dedo indicador. Ele foi o encarregado de abrir o portão da fábrica e após ter quebrado a corrente com cadeado num golpe da pesada sexta-feira que carregou toda a marcha em seu ombro direito e, ao empurrar o pesado portão junto com outros companheiros, acabou se cortando em um pedaço de metal solto no portão. “Nada que a luta não cicatrize.”

Ainda sentado começa a calçar seu par de coturnos. Lembrança de seu período de serviço militar obrigatório. Trabalhava como mecânico na garagem no quartel. Era um excelente mecânico. Até os oficiais traziam seus carros particulares para que ele consertasse. Era uma espécie de cirurgião da garagem do quartel. O coturno também o acompanhou em outros momentos de sua vida. Quando veio a sua baixa por tempo de serviço era o coturno que calçava os pés dele no chão da montadora de automóveis onde ficou por um período de seis meses até a empresa ser transferida para outro estado.

“Companheirada da Equipe da Escola”! Esse grito vindo de fora da barraca é para ele que integra a equipe de infra-estrutura que construirá a escola da ocupação. Várias outras equipes foram organizadas: saúde, disciplina, cozinha…

“Oh pessoal da infra… cadê a equipe da escola”? Mais uma vez aquele grito do lado de fora da barraca. Era muito familiar para Pedro a voz que gritava. Á cerca de quatro meses, foi aquela voz que ouviu no portão da casa de aluguel onde morava. Era Francisco, um companheiro trazido por um conhecido de Pedro. Francisco conversou a respeito de uma assembléia que seria feita com trabalhadores desempregados da região. Haviam sido marcadas várias assembléias. Era uma experiência diferente para ele aqueles momentos nas assembléias. Era novo. Som de violão, músicas, poemas, gente falando de solidariedade, igualdade e luta. Falavam também na idéia de ocupar aquela fábrica que já onde Pedro, por várias vezes, já havia pedido emprego.

Só aqueles consertos de automóvel de vez em quando não estavam solucionando o problema. A sua mais velha já estava na quarta série e os livros eram caros. Pedro já não mais pedia emprego na fábrica, que fechou as portas depois da última demissão em massa que a fábrica promoveu a um ano. Ele lembra que a algum tempo atrás ela chegou a ter quase mil funcionários, que produziam peças de automóvel até para o Japão. Ultimamente pouco mais de duzentos funcionários figuravam sua folha de pagamento.

Já de pé dentro da barraca ele coloca a bainha do facão em seu cinto ao lado esquerdo do corpo, bebe um pouco de água em um copo de guaraná natural. Ainda cansado, pois só conseguira cochilar por uma hora e meia, pousa a pesada sexta-feira em seu ombro direito.

Tentando não fazer barulho, Pedro abre lentamente à porta da barraca com a mão esquerda e, antes de sair, dá mais uma olhada nas meninas que dormem encolhidas entre si. “Como se parecem com a Jéssica”. Colocando o corpo para fora da barraca ao mesmo tempo em que sente o calor do sol da manhã, olha ao redor do acampamento. Várias barracas já estão montadas. Algumas poucas famílias ainda estão montando as suas. Tem barraca montada encima da marcação de pouso do helicóptero do dono da fábrica. Dizem que ele tem mais três em outros estados.

Pedro passa a cabeça por cima do seu ombro esquerdo para olhar a fábrica que está atrás. Da onde está pode observar que alguns dos companheiros já estão dentro da fábrica, na maioria ex-funcionários. Alguns são amigos de infância, outros ele só via de passagem na comunidade.

O azul do céu toca o verde claro das árvores que circundam o terreno da fábrica. “Ô, Pedro…! Vambora homi!” Era Francisco mais uma vez gritando. “A companheirada ta esperando perto da cozinha.” Só agora se deu conta do cheiro de café quente e do aipim cozido. De onde estava podia ver a fumaça da lenha queimando. As pessoas vão sendo atraídas pelo cheiro do café da manhã. A sirene da fábrica apita depois de quase um ano em silencio. Ele e seus amigos de infância cresceram ouvindo o grito daquela sirene todos os dias, sempre nos mesmos horários. A fábrica voltou a funcionar, agora comandada pelos próprios trabalhadores. Pedro irá construir a escola do acampamento. Na parte da tarde ele irá compor a outra equipe que manterá a fabrica funcionando.

Uma lágrima escorre do rosto (falta alguma coisa aqui) ao olhar um mastro ao seu lado. Contrastando com o azul do céu e o verde claro das árvores, tremula, no topo do mastro improvisado, uma bandeira feita de lona preta das barracas. Nela em tinta branca estão escritas as iniciais MTD.

Alguém dedilha uma viola. Suas meninas dormirão mais um pouco, e Pedro começa a caminhar em direção a cozinha do acampamento. Enxugou a lágrima com as costas da mão deixando o sol esquentar a sua pele enquanto caminha.

Marcelo Machado é militante do MTD-RJ

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