Zapatismo Urbano

Por John Holloway

I

Eu não sou um camponês indígena. Provavelmente você, caro leitor, tampouco seja um camponês indígena. Mesmo assim, esta discussão gira em torno de uma revolta camponesa indígena.

Os zapatistas de Chiapas são camponeses. A maior parte dos que escrevem e lêem este jornal é composta por habitantes da cidade. Nossas experiências são muito distantes daquelas dos zapatistas de Chiapas. Nossas condições são muito diferentes daquelas dos zapatistas de Chiapas, e nossas formas de luta também. Mesmo assim, a ressonância da revolta zapatista nas cidades foi enorme. Por quê? O que o zapatismo significa nas cidades?

Houve duas formas de reação nas cidades. A primeira é a reação de solidariedade: a luta dos indígenas de Chiapas é uma luta justa, e nós damos a ela todo o apoio material e político possível. A solidariedade define a luta como sendo a luta “deles”, e “eles” são índios que vivem em Chiapas. Não repudio essa reação, mas não é isso o que me interessa aqui.

A segunda reação vai muito mais além. Aqui não é uma questão de solidariedade com a luta de outros, mas de entender que os zapatistas e nós mesmos somos parte da mesma luta. Os zapatistas de Chiapas não nos dão um modelo que possamos aplicar à nossa parte da luta, mas vemos sua forma de luta como uma inspiração para o desenvolvimento de nossas formas de luta. Neste sentido podemos falar da expansão do zapatismo nas cidades, do desenvolvimento de um zapatismo urbano, para o qual o EZLN não é um modelo mas um constante ponto de referência.

Não há progressão linear aqui. Não estamos falando da expansão de uma organização (apesar de que certamente a expansão da Frente Zapatista no México é parte do processo). Tampouco se trata realmente de uma questão da expansão de uma influência de Chiapas. Não se trata de que as decisões do EZLN tenham influência nas lutas em Roma ou em Buenos Aires. É antes uma questão de ressonância e inspiração. A revolta zapatista teve enorme impacto nas cidades do mundo porque os temas que o EZLN levanta e as orientações que eles sugerem ressonaram fortemente com as preocupações e direções das pessoas nas cidades. Eles foram uma fonte constante de inspiração, porque formularam com particular clareza (não somente nos comunicados, mas em suas ações) direções e temas que já estavam presentes nas lutas das cidades.

O propósito de falar de zapatismo urbano é duplo. Por um lado é uma forma de focar mais de perto esse processo. O que é essa ressonância? Trata-se de uma ressonância real ou imaginária? Quais são as diferenças entre o zapatismo nas cidades e o zapatismo no campo? Quais são os problemas práticos para o desenvolvimento desse tipo de política nas cidades?

Mas, adicionalmente, falar de zapatismo urbano é falar de zapatismo como um desafio. Os zapatistas não pedem nossas simpatia nem nossa solidariedade. Comemorar os 10 e os 20 anos do EZLN não deveria ser uma celebração deles, mas um desafio para nós. Eles nos pedem para nos juntarmos em sua luta por um mundo de dignidade. Como o fazemos, nós que vivemos nas cidades, nós que escrevemos e lemos esse jornal?

II

A revolta zapatista foi um ponto de referência fundamental das lutas urbanas nos últimos dez anos. Mesmo assim há óbvias diferenças nas condições e formas de luta. Nós que vivemos nas cidades e vemos os zapatistas não estamos organizados como um exército. Não vivemos dentro de formas de estruturas de suporte comunais que existem em Chiapas. Não temos terra para plantar os víveres básicos necessários à sobrevivência, e não estamos, de forma geral, acostumados com os níveis de completa pobreza que constitui a experiência diária dos zapatistas de Chiapas.

Há aspectos na revolta zapatista que não encontraram nenhum eco nas cidades. Nós, zapatistas urbanos, geralmente não queremos ser organizados como um exército, e freqüentemente rejeitamos o militarismo como uma forma de organização e de conceito de luta. Nos atuais debates na Itália, os zapatistas são mesmo tomados como modelo para defender uma completa rejeição de toda violência. O outro aspecto do zapatismo de Chiapas que encontra pouca ressonância nas cidades é o seu uso de símbolos nacionais – a bandeira nacional, o toque do hino nacional. O movimento zapatista urbano tende a não ser nacionalista e em muitos casos é profundamente antinacionalista. Ele tem sido menos um movimento internacional do que um movimento global, um movimento de luta para o qual o capitalismo global, e não o estado nação, tem sido o principal ponto de referência.

Quais, então, são os aspectos da revolta zapatista que encontraram eco nas cidades do mundo? O mais óbvio é o mero fato da rebelião – o fato de que os zapatistas levantaram-se quando o tempo da rebelião parecia já ter passado, o seu !Ya basta! para um mundo que é tão obviamente obsceno.

Mas há mais que isso. Trata-se também que o seu !Ya basta! se volta também contra uma esquerda que tornou-se envelhecida, rígida e alienante. É a rejeição tanto do vanguardismo revolucionário quanto do reformismo estatal, a rejeição do partido como forma organizacional e da busca do poder como objetivo.

A rejeição das velhas formas de políticas de esquerda nos deixa um enorme ponto de interrogação. Isto em si é importante. O dito zapatista “preguntando caminamos” adquire uma ressonância particular, porque somos conscientes de que não sabemos o caminho adiante. O mundo à nossa volta nos faz gritar, mas onde vamos com o nosso grito, o que fazemos com o nosso grito? A política da rebelião é uma política de busca – não pela linha correta, mas por alguma forma de caminho adiante, alguma forma de tornar nosso grito efetivo. Não há partido para nos dizer qual caminho seguir, então devemos encontrá-lo nós mesmos.

A política da pergunta nos leva a certas formas de organização. A forma organizacional dos zapatistas de Chiapas se caracteriza por uma tensão, como eles mesmo enfatizam. Esta é a tensão concentrada em seu princípio de “mandar obedeciendo”. De um lado, estão organizados como um exército, com tudo o que isso significa em termos de linhas verticais de comando. Por outro, o exército se submete ao controle dos conselhos das aldeias, onde a discussão e o consenso são os princípios guias.

A rejeição do partido como uma forma organizacional significou (inevitavelmente, talvez) o renascimento do conselhismo, o renascimento do conselho ou assembléia. O conselho é a forma tradicional de expressar revolta que surge reiteradamente em rebeliões, da Comuna de Paris aos Conselhos de Bairro da recente revolta na Argentina. É uma forma de organização expressiva, que procura articular a raiva e as preocupações dos participantes. Isto pode ser contrastado com a forma partido, que não é expressiva, mas instrumental, desenhada para atingir o fim de ganhar o poder estatal. Como forma expressiva, o conselho tende a ser horizontal em suas estruturas, encorajando a livre participação de todos e procurando atingir o consenso em suas decisões. Visto dessa forma, o conselho não é tanto uma estrutura formal, mas uma orientação organizacional. Esta orientação organizacional – a ênfase na horizontalidade, o encorajamento da expressão das preocupações das pessoas, sejam ou não sejam “revolucionárias” ou “políticas” – tem sido um componente característico da atual onda de lutas urbanas: não somente dos conselhos de bairro da Argentina, mas igualmente de alguns dos grupos piqueteros, das Mães da Praça de Maio, dos Centri Sociali em Roma, Milano e Turim, do movimento altermundista em geral.

O conselhismo se relaciona com a questão da comunidade. Nas áreas zapatistas de Chiapas a comunidade existe, não como um idílio a ser romanceado, mas simplesmente porque a maior parte das pessoas de uma aldeia conhecem-se umas às outras durante toda a vida e porque há práticas estabelecidas de trabalho e tomadas de decisão comuns. Nas cidades, freqüentemente há muito pouco senso de comunidade. As pessoas que trabalham juntas não necessariamente vivem próximas, e pessoas que vivem próximas umas às outras freqüentemente não têm contato. O grito de protesto que sentimos é freqüentemente sentido como um grito isolado e desesperançado, um grito que compartilhamos na melhor das hipóteses com um punhado de amigos. A (re)construção de ligações de comunidade tem sido, portanto, um tema constante no movimento das cidades. A construção de centros sociais ou cafés alternativos, o encontro de pessoas em movimentos informais e dinâmicos criam novos padrões de comunidade e confiança mútua que são parte e parcela do desenvolvimento de formas conselhistas de organização.

Talvez o desafio central do zapatismo urbano seja o desafio da autonomia. Autonomia é simplesmente o outro lado de dizer que nós queremos mudar o mundo sem tomar o poder. Rejeitar a busca do poder estatal significa a rejeição do partido como forma de organização (entendendo partido como uma forma de organização orientada ao Estado). Mas significa muito mais que isso. Significa também uma mudança no entendimento do conflito social ou luta de classes. O conceito tradicional vê a luta de classes como uma luta pelo poder, uma luta pelo poder que inevitavelmente determina a agenda, os ritmos e as formas de luta. A confrontação é então o pivô da luta social. Se, entretanto, dizemos que não queremos tomar o poder, então muda toda a concepção de luta. O que é central agora não é a confrontação com o outro lado (o capital) mas a construção de nosso próprio mundo. Tentamos nos focar em nosso próprio fazer, para impulsionar o conflito para o nosso lado.

Isto ainda é luta de classes, ainda é confronto com o capital (inevitavelmente, uma vez que o capital é a imposição de um controle externo de nossa atividade). Mas tanto quanto possível nós tomamos a iniciativa, definimos a agenda. Fazemos o capital seguir a nossa agenda, e então se torna claro que a agressão vem deles, não de nós. Não podemos ser autônomos em uma sociedade capitalista, mas podemos impelir a nossa autonomia tão longe quanto possível. O capital é a negação da autonomia, a sempre repetida negação de nossa autodeterminação. (Como parte disso, o Estado é a sempre repetida negação do conselho). Se vemos a confrontação como o eixo da luta, então estamos antecipando e consequentemente participando nessa negação. Fazendo do desenvolvimento de nossa própria criatividade (nosso próprio poder-fazer) o centro do movimento, o capital é revelado como um parasita, forçado o tempo inteiro a nos perseguir. Isto é ilustrado pelo Caracoles, o estabelecimento zapatista de suas próprias Juntas de Buen Gobierno, nas quais os zapatistas desdenham o Estado, dão as costas ao Estado, não demandando nada dele nem confrontando-o abertamente, somente fazendo suas próprias coisas.

Mas fazer nossas próprias coisas, desenvolver nossa própria criatividade, não é o mesmo nas cidades e no campo. Não possuímos terra na qual possamos plantar mesmo os mais básicos alimentos. Pode ser possível ocupar terra para estas finalidades (como alguns dos grupos piqueteros na Argentina começam a fazer), mas para a maior parte dos grupos urbanos esta não é uma opção. Para desenvolver nossa autonomia somos forçados a situações contraditórias, nas quais é muito melhor reconhecer essas contradições do que maquiá-las, exatamente como os zapatistas tiveram o grande mérito de reconhecer desde o início a contradição de ser uma organização militar em um movimento pela dignidade humana. Grupos urbanos autônomos sobrevivem ou na forma de subsídios estatais (às vezes arrancados à força pelos próprios grupos, como no caso dos piqueteros que usam os bloqueios de estradas para forçar o governo a dar dinheiro aos desempregados) ou na base de alguma mistura de emprego e subsídios estatais ocasionais ou regulares. Então, muitos grupos urbanos são compostos de uma mistura de pessoas em empregos regulares, de pessoas que estão por escolha ou necessidade em empregos irregulares ou ocasionais e daqueles que (novamente por escolha ou necessidade) são desempregados, freqüentemente dependentes de subsídios estatais ou alguma forma de atividade mercantil para sua sobrevivência. Estas diferentes formas de dependência de forças que não controlamos (do capital) colocam problemas e limitações que devem ser reconhecidos. Ao mesmo tempo, a significação destas limitações obviamente depende da força coletiva dos grupos: no caso dos piqueteros, por exemplo, o pagamento dos subsídios estatais foi imposto por bloqueios de estradas e administrado pelos próprios grupos.

Todas essas diferentes formas de dependência do capital são impostas pela propriedade, pelo fato de que toda a riqueza produzida pelo fazer humano é congelada na forma de propriedade, que nos confronta e nos exclui. A limitação à nossa autônoma autodeterminação aparece na forma de propriedade, atrás da qual se colocam as forças da lei e da ordem que defendem a propriedade. Parecemos ser forçados, então, de volta à lógica da confrontação na qual perdemos a iniciativa, ou na qual somos forçados a nos focar em ganhar o poder, de forma que possamos controlar a polícia e mudar as leis de propriedade. Se excluímos esse caminho (simplesmente porque o controle do Estado tende a tornar-se o controle pelo Estado), como podemos avançar? Possivelmente desfetichizando a propriedade, vendo que a propriedade não é uma coisa estabelecida, mas um processo constante de apropriação, um verbo, não um substantivo. O problema então não é conceituar nossa própria ação em termos de desafio à propriedade, mas focar em nossa própria construção de um mundo alternativo e pensar como evitar a apropriação capitalista dos produtos de nosso próprio fazer.

Todos os problemas indicados apontam para os perigos de confundir uma ênfase na autonomia com um conceito de micropolítica. A noção de autonomia, como entendida aqui, aponta para a centralidade de nosso próprio fazer e o desenvolvimento de nosso próprio poder-fazer: se vemos o mundo dessa perspectiva, então é claro que o capital é o parasita e que os assim chamados “mandatários” simplesmente nos perseguem o tempo todo tentando apropriar-se dos resultados de nosso fazer criativo. O problema da revolução é o de livrar-se dos parasitas, evitar que eles se apropriem da criatividade e de seus resultados, para fazê-los irrelevantes. Esta luta não requer nenhuma organização central (e certamente nenhuma orientação em direção ao Estado), mas sua força realmente depende de seu caráter massivo. O que qualquer grupo particular pode conseguir claramente depende da força de um movimento inteiro pressionando em direções iguais ou parecidas. A força dos grupos componentes depende da força do movimento, assim como a força do movimento depende da força dos grupos componentes.

III

Qualquer que seja o modo como pensemos a revolução, nos deparamos com a tarefa de dissolver a Realidade. A transformação do mundo significa mover-se de um mundo governado pela realidade objetiva para um mundo no qual a criatividade subjetiva é o centro, no qual a humanidade se torne o seu “próprio sol verdadeiro”. A luta por tal mundo significa um constante processo de crítica, uma processo de minar a objetividade da realidade e mostrar que ela depende absolutamente para sua existência da criação subjetiva. Nossa luta é a luta contra o mundo-que-é, com suas regras de lógica que nos dizem que não-há-alternativa, com sua linguagem de prosa que fecha nossos horizontes.

A poesia da revolta zapatista (de seus comunicados e de suas ações) não é periférica ao seu movimento, não é a decoração externa de um movimento fundamentalmente sério, mas central para sua luta como um todo. O fato de que os zapatistas de Chiapas (e em algum grau outros movimentos indígenas latino-americanos) tenham tido tal impacto nas lutas urbanas do mundo tem muito a ver com a linguagem que eles usam. Não é somente uma questão de palavras bonitas, ou das indubitáveis habilidades literárias de Marcos. É acima de tudo o fato de que eles oferecem uma forma diferente de ver o mundo, uma visão que quebra com a lógica dominante do não-há-alternativa. A poesia (e naturalmente outras formas de expressão) vem jogar um papel decisivo na luta anticapitalista: poesia não como palavras bonitas, mas como luta contra a lógica prosaica do mundo, poesia como o chamado de um mundo que ainda não existe.

Isto é um romantismo perigoso? Estão os zapatistas, sem intenção, levando a juventude rebelde do mundo a formas de ação que são perigosamente não realistas? Recentemente, como parte das celebrações dos 10/20, os zapatistas enfatizaram a centralidade da organização em sua luta: esta é uma forma de contrariar a impressão de que sua luta é somente poesia, somente o poder da palavra?

Talvez haja um elemento de romantismo na ressonância da luta zapatista. Às vezes, para os apoiadores dos zapatistas que visitam as comunidades zapatistas em Chiapas, há indubitavelmente um choque entre suas expectativas e a realidade de suas experiências. Em geral, entretanto, não é o caso. Aqueles ativamente envolvidos na luta, seja nas cidades ou no campo, estão a par das dificuldades que eles enfrentam e da importância da organização. A poesia do zapatismo não deflete as pessoas da questão da organização. O que ela faz, ao invés, é abrir perspectivas em um mundo que parece tão terrivelmente fechado. Mais do que isso, ela sugere formas de ação que quebram com a lógica do capital e são mais difíceis para o capital integrar na textura da dominação.

A acusação de romantismo realmente tem a ver com a questão do poder. O “realismo” é identificado com a perspectiva que foca o poder e vê a organização e a ação como sendo instrumentos para atingir certas mudanças (sejam mudanças pequenas ou a mudança radical da sociedade). O que esta perspectiva realista não consegue enxergar é que a completa instrumentalidade do enfoque leva à adoção de formas de ação e de organização que neutralizam e desmobilizam o movimento por mudança. É precisamente porque o realismo instrumental não conseguiu atingir o objetivo da mudança social radical que as pessoas em todos os lugares se distanciaram deste enfoque, em direção a formas de ação que são expressivas, ao invés de instrumentais. Parte disso é a rejeição do objetivo de tomar o poder estatal e do partido como forma organizacional. A poesia do movimento é parte do mesmo processo.

Irá este romantismo poético provar ser mais realista do que o prévio realismo socialista? Não sabemos. O que sabemos é que o realismo da política do poder fracassou para atingir uma mudança social radical, e que a esperança está em quebrar a realidade, em estabelecer nossa própria realidade, nossa própria lógica, nossa própria linguagem, nossas próprias cores, nossa própria música, nosso próprio tempo, nosso próprio espaço. Este é o núcleo da luta, não somente contra “eles”, mas contra nós mesmos, que é o núcleo da ressonância zapatista.

(Traduzido por Daniel Cunha)

Fonte:www.fimdalinha.1br.net/

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s